Eu nunca fugi de briga

A gente foi conversar com a Soninha pra descobrir se ela tragou quando fumou”    Ela passou de uma hora pra outra a ser uma das pessoas mais famosas do Brasil. Está em quase todos os programas de televisão, defendendo sua opinião e conversando sem hipocrisia sobre a maconha. Soninha, apresentadora de TV que já trabalhou na Cultura, MTV e ESPN, deu uma entrevista falando que fumava maconha e criou uma das maiores polêmicas dos últimos tempos. Foi inclusive demitida do programa RG, da Cultura, por causa disso. E a gente foi conversar com ela pra saber como foi esse barraco.
02N – Você fumou. Mas tragou?

Soninha – EEuuu?? Nããão, imagina.

02N – Fazendo um paralelo com o que aconteceu com você, você acha que o Fernando Henrique Cardoso também deveria ser demitido? Afinal, ele também disse que já fumou maconha.

Soninha – Nesse teatrinho que a gente encena há anos, tudo bem alguém dizer que já fez alguma coisa contra a lei – com o verbo assim, no passado. Já fiz aborto, por exemplo. Como a gente gosta de varrer as coisas pra baixo do tapete mais do que de resolver os problemas de verdade, todo mundo fala ah, tudo bem, passou, e fica por isso mesmo.

02N – Você imaginava que a Cultura pudesse tomar esse tipo de decisão?

Soninha – Achei que eles podiam não querer renovar o contrato comigo para o ano que vem, achando que eu dava muito trabalho. Sempre gostei de trabalhar com liberdade, foi isso que me prometeram, mas acho que eu sou muito briguenta para o gosto deles. E pensei que agora, para desfazer qualquer engano, eles iam me OBRIGAR a falar, discutir, esclarecer o que eu disse. E não me proibir até de dar tchau.
(Pergunta: você acha que se eu tivesse confessado uma outra transgressão à lei, tipo eu uso um software pirata, eles teriam se livrado de mim do mesmo jeito?)

02N – Você acha que os jornalistas que fizeram a matéria agiram de má fé?
Você vai processá-los?

Soninha – Eles me convenceram de que não agiram de má-fé, só quiseram bancar essa história de falar de maconha de outro jeito, sem lançar sobre os maconheiros a sombra da marginalidade. A capa seria um exemplo do espírito da matéria. Entendi a intenção deles, mas ainda assim não concordo. Eles não tinham o direito de usar a minha foto para chutar o pau da barraca sem perguntar se eu concordava com isso. Vou processá-los, sim, por uso indevido de imagem.

02N – Os outros entrevistados da matéria eram todos homens (os que
apareceram na capa). Você acha que o fato de ser mulher te expôs mais?

Soninha – Talvez, mas acho que o que contou mesmo foi o fato de eu ter uma cara um pouco mais conhecida e de ser tão boazinha. Acho que nunca alguém tão certinho (eu respeito faixa de pedestre…peço nota fiscal…) admitiu em público que fumava maconha, então eles aproveitaram.

02N – Você está indo em vários programas de TV, até no Fala que eu te
escuto. Tem algum que você acharia importante ir?

Soninha – A Hebe. Não adianta nada ficar só falando com a nossa galera, com quem já conhece mesmo um monte de gente que fuma maconha e trabalha, estuda e é normal. Tem de falar com a tiazinha que pensa que o cara fuma maconha e sai “pra matar alguém; que o baseado que ela achou na gaveta do filho significa ”
que ele é um depravado, doente, bandido que vai bater a carteira dela pra
comprar droga.

02N – O que você achou da Adriane Galisteu ter falado que você pisou na
bola (durante a entrevista que você deu no programa dela)? Você ficou
com vontade de dar um fora nela?

Soninha – Não, porque eu já esperava que fosse assim. Eu sabia que ela tinha feito um  debate na semana anterior em que tudo indicava que ela era contra a descriminação (nem sei se ela chegou a dizer isso abertamente, porque não vi o programa). Eu nem liguei, ela deu a opinião dela mas deixou eu falar, e ainda foi solidária por eu ter perdido o emprego. Ruim mesmo seria se ela mostrasse a revista, dissesse que eu pisei na bola e não me chamasse para falar nada. O público me ouve, ouve a Adriane e decide de que lado está.
Beleza.

02N – Você atua em vários projetos sociais, ajuda crianças carentes, faz
reciclagem, etc. Você acha importante tomar partido, lutar por causas
importantes?

Soninha – Tanto eu acho que fiz isso a vida toda. Trabalhar em televisão, pra mim, era  parte da minha causa. A luta básica é por um mundo com menos sofrimento.
Desde pequena eu não consigo dormir e acordar numa boa sabendo que tem gente morando na rua, gente doente sem tratamento, gente com fome, gente apanhando, gente se fodendo de tudo quanto é jeito. Não adianta nada eu ficar bem se em volta de mim, perto ou longe, não está nada bem.

02N – Por que você acha que as pessoas são tão hipócritas em relação a
maconha?

Soninha – Sei lá, acho que tabu é assim. Mas alguns tabus já caíram – lembra que divórcio era o símbolo da decadência da civilização ocidental? As pessoas preferiam fingir que todos os casamentos eram felizes, mesmo sabendo na real, na própria pele, que não eram. E homossexualidade? Ainda tem gente que acha que é doença, depravação e o escambau, sempre vai ter, mas já não é mais um esqueleto no armário. O problema é que pra cair um tabu, neguinho tem de estar
disposto a falar e pronto para ser zoado, execrado, mal compreendido e
segurar a onda. Com maconha, estava mais fácil deixar tudo como está  – é tão fácil fumar – do que comprar briga com o mundo inteiro.  Mas eu nunca fugi de briga.

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