Um dia de destaque

Como uma garota acabou em cima de um carro-alegórico no carnaval cariocaE lá estava eu: buscando na concentração das escolas de samba do Sambódromo, a minha ala. O amigo que tinha combinado comigo ainda estava no camarote de uma cerveja. E eu, de melindrosa, com direito a meia-arrastão e pena na cabeça, vagava no meio das pessoas fantasiadas.
Depois de rodar no meio de mulheres de cinta-liga, das baianas e do pessoal da diretoria, achei o meu carro. Era o carro da discoteca. Peguei meu crachá e a camiseta do meu pretê e logo tivemos a notícia bomba, da chefe da ala: Ele tem que estar vestido de calça branca e sapato branco. Senão não pode sair com essa camisetaO que?! Como vamos arranjar uma calça branca e um sapato branco no domingo de carnaval a meia-noite?! Sem isso ele não sai. A escola pode perder pontos.
A gente se desespera. Conseguir uma meia-arrastão num shopping paulista  não é nada perto de achar uma calça e um sapato branco a essa hora da madrugada. Chego para um senhorzinho todo em branco e pergunto se ele não tem um sapato extra. Minha filha, você não tem um parente que possa trazer isso aqui? Minha mulher esqueceu o véu da fantasia de enfermeira dela em casa, liguei pro meus parentes eles estão vindo trazer, lá de Caxias.
Parece que não vai ter jogo mesmo. Depois de ligar para uma amiga que tinha uma legging branca, tivemos a idéia de gênio de comprar esparadrapo para enfaixar o tênis. E meu pretê saiu correndo atrás da indumentária branca. Tudo para a escola não perder pontos.
Enquanto espero a hora de entrar na passarela do samba, resolvo descobrir onde vou ficar no carro. Deixa eu olhar no mapa, diz a chefe da ala, É ali, diz ela, apontando para um queijo, um lugar de um Destaque. AH?!, digo eu. Como assim, eu vou de destaque?
Sim, eu vou de destaque. Não sei porque cargas d´água me botaram como destaque. Num lugar altíssimo, onde ficam aquelas pessoas que vão com uma fantasia toda em penas de pavão. Na hora de subir para o meu lugar, o cara que empurra o carro comenta: Pô, pensei que fosse uma mulher de biquíni. Assim não dá! Logo no meu carro. Eu quase peço desculpas de estar de melindrosa e não com um micro-biquíni e silicone.
E a glória absoluta foi quando eu vi o destaque logo a minha frente: a Lacraia, junto com o MC Serginho. Obviamente que isso foi uma desvantagem (ou uma grande vantagem) porque toda a atenção se voltou para ela, que sambava até o chão, não se importando com os trancos que o carro dava.
E o desfile foi o máximo. Eu me segurando no ferro que tem no meio do queijo, fazendo reverências para a arquibancada e fingindo cantar o samba. Afinal, eu só sabia duas estrofes e não podia prejudicar a escola. Mas a escola foi prejudicada por outra coisa e não ganhou. Hoje eu não vou no Desfile das Campeãs. Mas pelo menos uma vez na vida, eu tive o meu dia de destaque.

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