Os homens e o telefone

Xico Sá descobre este mistério. Quando começou a febre de celular  – coisinha que agora virou brinco de brasileiro por tudo quanto é canto, mas pagar a conta que é cara, que nada!- minha mãe Maria do Socorro dizia, lá em Juazeiro: “”Agora já vi que a frescura tomou conta do mundo mesmo, ninguém vive mais sem essa praga. Mas menino, eu namorei, casei, criei seis meninos sem telefone nenhum…”” Aí introduzi a velha pernambucana de Floresta, polígono da maconha, numa prosódia beat contemporânea, algo assim meio almanaque “”02 neurônio””.                 Eu que havia sido criado sem telefone algum -e era o próprio moleque de recado do interior- provoquei a bela, linda, morena, genial genitora, sobre a necessidade da ligação do day after: “”Mas como o velho comunicou à senhora que estava a fim, de verdade, no dia seguinte?””   “”Que dia seguinte, menino! Naquele tempo a vida era compassada””.    “”Compassada?”” “”Era o tempo do nada como um dia atrás do outro, meu filho””. “”E a senhora não ficava ansiosa, querendo que o velho Francisco Nildemar aparecesse logo?””

“”Coitado dele se enxerisse antes do tempo. O velho Manuel Novaes, teu avô, era brabo que só o cão, comia o figo dele””. O galego teve que esperar dias, noites, mandar recados, assuntar o clima na casa do possível sogro, pagar uma cachaça para o velho na feira do Crato, deixar a maçaranduba do tempo de molho…Tudo quase russo. A espera de uma carta já era sinal da ansiedade total, o alt-F5 do outlook do horizonte possível. O amarelo do carteiro na vista. “”O maior sinal que ele deu foi passar de bicicleta aqui na frente de casa, dias depois da gente se conhecer… Passou e olhou, de longe, bem longe, vi só a poeira da vereda””, soltou-se dona Socorro no seu proustianismo amoroso possível.
O flerte era de dois irmãos com duas irmãs: meu pai e o irmão dele (Francisco Naidson), minha mãe e a irmã Francisca Novais. O duplo casal de sangue se formaria tempos depois. Tudo sem telefone, sem dia seguinte, com a ansiedade em outro compasso. Tudo na base do “”quando vim-vim cantou corri pra ver você””, como no nobre baião gonzaguiano. Quando meu pai deu o primeiro telefonema passava dos 50. E nem foi para mulher. “

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