Casa de mãe

O que acontece quando uma moça que mora sozinha vai passar uma temporada na casa materna. Leitoras que moram com os pais: eu estou com vocês. Entendo o que vocês passam diariamente. Isso porque eu tirei uma semana de férias. Fiquei na casa da minha mãe. Aconteceu aquilo que não acontecia há milênios. Eu estava esperando um telefonema. Nessas horas, em geral, eu desocupo o telefone, porque eu moro sozinha. Se alguém liga, desligo. Mas não. O primo ligou para a namorada. A ex vizinha ligou para a minha mãe. E eu, que nem estava esperando tanto o telefonema, passei a ser tomada por histeria. Claro, ele ia ligar, ia estar ocupado e ele ia desistir. ”
Mas aí ele liga no celular, disse o meu primo. Não é assim, tentei explicar pra ele. ELE só conhece gente que mora sozinha (ou tem duas linhas) e está acostumado com o default: telefone ocupado-Nina pendurada.
E eu nem podia falar que estava esperando o telefonema porque o povo não gostaria de ter essa informação. Diga ao povo que eu fico. Quieta.
“Porque outra coisa que eu não sei mais fazer é falar. Ok, eu sou a garota que mais fala no mundo. Mas há momentos em que fico muda. E não quero falar nada, nada, nada, nada. Sou daquelas que chega em casa e muitas vezes desliga o telefone. Descobri que a simples pergunta: “”que filme você está vendo?”” Já é capaz de me transtornar. É que provavelmente  estarei vendo um filme que não presta, porque não quero pensar. E pensar é não falar, já diria alguém. Também nunca sei ao certo se vou ou não almoçar, ou que horas farei isso. ”
“Como não sei se alguém vai me telefonar, já que estou tentando parar de obrigar pessoas a serem minhas escravas e disse para o amigo: “”se estiver afins liga, se não deixa pra lá. Eu sei que você está cansado””. Estou tentando crescer espiritualmente. E não tem sido fácil. ”
A idade adulta nos torna capazes de falar esse tipo de coisa bonita, mas também nos torna individualistas. E extremamente dependentes (no meu caso) de telefonemas de pessoas que entendam a aflição que é a vida e que queiram segurar a minha mão por cima da mesa e sorrir (e que não se deparem com o telefone ocupado justamente no sagrado momento em que pensaram em mim).
O telefone tocou. Na hora em que o almoço estava na mesa. Não entenderam que eu precisava sair, assim, correndo, encontrar um cara que me esperava na chuva. E que aquele dia nem se preocupou com o próprio corte de cabelo.
Mas deixa pra lá. Voltei para a minha casa. Não estou esperando telefonema nenhum e não tem mesa posta.
Melancolia futebol clube. Saudade. Domingo de noite. Grande vontade de chorar.

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