Lágrimas sinceras por causa de um traje a rigor

E isso no Carnaval… Eu chorei. As lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto um amigo tentava me acalmar. “”O que eu posso fazer por você?”” Talvez você pudesse me ajudar a me matar.”” Essa foi a resposta. E não, ninguém tinha partido o meu coração. Eu só não tinha roupa para ir a uma festa. Mais precisamente para um baile de Carnaval (eu odeio Carnaval) em uma festa de sociedade (eu odeio sociedade). O traje era a rigor. ”
Sim, você deve estar se perguntando como que eu, uma garota vivida, de alma punk, fui cair numa dessas. Mas é que eu tenho amigos. E para estar com amigos a gente tem vontade de fazer qualquer coisa. Com eles, tudo pode ser engraçado.
Mas não, não teve graça nenhuma descobrir que eu não tinha roupa. Entrei em um processo de regressão. Lembrei da minha adolescência meio dura. Eu nunca sabia que roupa usar naquelas festas de 15 anos que pedem traje esporte fino (nunca entendi o que é isso). Nessa época, cometi os maiores equívocos fashion (nos anos 80 essa palavra ainda não existia no Brasil, para graça de todos) da minha vida. E não, não havia grana para comprar grandes modelos. Sim, rolavam umas camisetas da Company, mas acho que a minha mãe também não sabia o que era esporte fino.
Eu rememorava a dor de não ter a roupa certa naquela festa onde poderia estar o homem da minha vida (com 15 anos eu ainda acreditava nisso)  e chorava como a adolescente que eu era. Senti pena de mim mesma. Pensei em abrir uma Ong para ajudar garotas adolescentes a terem roupas para ir a festas de traje esporte fino. Porque hoje eu cresci e tenho algumas roupas bacanas que devem passar como esporte fino. Eu emprestaria com gosto aquela saia de paeté do Caio Gobbi para qualquer garota! Ou o meu vestido preto de adulta (o único de adulta que eu tenho). Ou as saias do bazar do Reinaldo Lourenço. Ou a blusa linda do Alê. Se você tiver 15 anos e não tiver roupa para ir a uma festa esporte fino, pode me mandar um e-mail. Eu empresto. Até o sapato.
Mas sim, o baile. O outro amigo sugeriu um vestidinho meio esporte. Os outros vetaram. E eu só chorava, lágrimas profundas. Eu não tinha o que vestir.
“Num estilo CVV, me convenceram a ir até a casa do amigo onde as pessoas estavam se arrumando. Cheguei lá com os olhos inchados. E quando eu disse que era uma adolescente sem modelo eles quase choraram. Me abraçaram com sinceridade. “”Eu também não tinha, pára se não eu vou chorar””, disse o T.
“E de repente apareceu um vestido. Experimentei, ficou bom. Mas agora o centro da depressão não era mais eu, mas outro amigo, que gritava, muito sinceramente irritado: “”pronto, eu não vou, podem ir, não saio na rua com essa gravata!.”” ”
“Depois de uma hora mais ou menos ele se arrumou. Saímos e fomos para o Baile. Na entrada, a apoteose da depressão dos modelos. “”Você não pode entrar porque essa roupa não é fantasia luxo nem smoking completo.”” As palavras, ditas por uma criatura ridícula vestida de branco foram dirigidas para o T. Que estava lindo (e nunca ridículo), de terno, tênis All Sar camuflado. Tudo bem, ele entrou.”
Mas aprendi a lição. Festa que não aceita o seu jeito de se vestir não te aceita. E quem não te aceita você também não aceita. Por isso não, não é para ir em festas onde a gente não pode se vestir naturalmente com nosso arsenal de roupinhas que a gente ama. Quem não gosta das minhas roupas não gosta de mim. E eu também não gosto deles, é claro.

PS. Ano que vem eu vou ao tal baile, mas vou ficar com os populares que ficam na rua sacaneando quem entra pelo tapete vermelho. Eles chamam todos os ricos (ou classe média infiltrados como eu)  de cafonas. Eles nunca vão entrar no baile porque são pobres. E já aprenderam que quem não deixa a gente entrar é cafona. Seja quem essa pessoa quem for.

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