O dia em que o Corredor X trocou o óleo

Ou: a mulher e o frentista. Tenho poucas certezas na vida. Uma delas: nada prende mais a atenção de um homem do que ver uma mulher tentando estacionar o carro numa vaga. Eles ficam paralisados, respiração suspensa,  diante daquela visão . Uma fêmea tentando acertar a baliza. E acertamos, diante dos olhares – às vezes, nada discretos e, muitas vezes, incrédulos – dos machos que passam pela  rua. E o tédio cotidiano pode prosseguir.

Não queremos parecer a Penélope Charmosa. Nascemos para ser o Corredor X.  
 
Quanto ao posto de gasolina…  bem: continuamos achando que estamos fadadas a ser passadas para trás. Eu me lembro, tinha uns 11 anos: estava no banco carona do carro da minha prima de segundo grau naquele posto em frente ao Parque da Catacumba. O homem do posto lhe empurrou meia dúzia de produtos –  aditivos, fluidos e outras químicas. Se ela não seguisse seus conselhos, seu carro poderia explodir. Quando chegamos em casa, fomos recebidas com gargalhadas pelos homens da família. Entrávamos para as estatísticas das mulheres enganadas pelos frentistas. 
 E, em alguns casos – o meu é um deles – nós merecemos. 
 – Nunca fez revisão… mas e  óleo? Não vai me dizer que nunca trocou?! Assim você me mata do coração – dizia o homem da oficina autorizada.
Menti descaradamente.  
– Claro que o óleo eu troquei
“Começava, aí, a minha semana de auto-flagelo e martírio, um caminho conhecido por garotinhas que estudaram em colégio de padre. O da culpa. A culpa por nunca ter trocado o óleo. E o pânico: como, agora, trocar o óleo sem ser desmoralizada por toda a população mundial? Onde trocar o maldito óleo sem que o frentista me trate com escárnio por não trocar o óleo durante dois anos? Culpa. Desespero. E agora? Será que atravesso a cidade para realizar a troca num posto onde eu nunca mais ponha os pés? Invento mentiras e desculpas. Vou dizer que o carro não é meu. Que estava passando uma temporada em Marte e deixei o carro com a minha irmã. Pensamentos neuróticos. Ninguém tem nada a ver com a minha vida. Errar é humano. E não trocar o óleo é estúpido.
Uma semana depois, paro num posto da Lagoa. Fica exatamente do lado oposto daquele em que – há mais de 20 anos – minha prima foi enganada. Quer que troque o óleo? , pergunta o frentista. 
Prendo a respiração. Me encho de coragem. Afinal, sou uma mulher ou uma rata?  
– Pode trocar.
O coração acelera. É hora da chacota em praça pública.  
– Nossa, está até dando graxa – diz ele. 
Me faço de desentendida.. Começo a fazer perguntas estúpidas para distrair sua atenção. Pergunto sobre a proibição de atender celulares em postos de gasolina. Ele explica que quando uma pessoa atende um telefone celular pode acontecer uma explosão provocada por uma faísca invisível do aparelho e por gases incolores que pairam sobre os postos. Mas ele nunca viu uma, só em filme. Faço perguntas sobre a máquina de sugar óleo. Quantos litros cabem? E depois, para onde vai o óleo? E de onde vem os bebês? O Alasca faz parte dos Estados Unidos? Isso quer dizer que os esquimós são americanos? 
Todas as perguntas têm como único objetivo desviar a atenção do pobre frentista do óleo velho do carro. E, por tabela, me tornar uma pessoa mais culta. Cabem 40 litros na máquina sugadora e, depois, o óleo pode ser usado para fabricar asfalto! Não é incrível!?! E o mais incrível: consigo atravessar a troca do óleo sem que ninguém perceba minha ignorância mecânica. Sou uma ilusionista. Até que ele me avisa que vai trocar a água do carburador e colocar um fluido.  
 Um alarme começa a tocar dentro de mim. Estou sendo enganada. Tenho certeza. O frentista anda em câmera lenta em direção às embalagens do sei-lá-do-quê. Sou tomada pelo desespero. Resolvo ligar para o meu pai do celular, desafiando até as fagulhas invisíveis que provocam explosões em postos de gasolina de filme americano. Mas, novamente, lá vem ela: a culpa. Me sinto constrangida em perguntar sobre o fluido na frente do frentista. Ele vai achar que eu acho que estou sendo passada para trás. E se ele for uma boa pessoa?  
– Oi, pai. I have to talk in english. Im changing the oil of the car…
 Começa um patético diálogo em inglês digno do curso de conversação para idiotas.   
– He said that I have to put de fluid. 
– A-hã? Mas o manual do seu carro diz o que? – meu pai pergunta.
– 0 manual… eu… o manual eu deixei em casa.
 Um minuto de silêncio. Pausa para os comerciais.  
 – Filha, manual do carro é para deixar no porta-luvas.
 O epílogo: deixo o frentista  colocar o maldito fluido. Pago a conta absurda e vou embora feliz por  ter trocado o óleo. Depois, claro, de ter jogado toda a honra da raça feminina na mais pura lama.  
Desculpem, garotas. 
 PS: E a pergunta que não quer calar. Os esquimós, afinal,  são ou não americanos?!!

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