A filha de comunistas precisa demitir a faxineira!

E não consegue porque aprendeu quem é Simone de Beuvoir, mas não a ser dona de casa. Eu sou filha de meio intelectuais, meio de esquerda (termo do amigo Antonio Prata). Isso é maravilhoso, inclusive porque eu também sou meio intelectual, meio de esquerda. Meus pais me ensinaram a não ser Arena, me levaram ao nordeste, conheci o sertão com sete anos, vi Dersuzalá com oito anos e tive vários brinquedos de lata. Acho que deu certo porque eu gosto de ser quem eu sou. ”
Agora, eles falharam! Meus pais, meio intelectuais, meio de esqueda, me ensinaram a frequentar botequim (sim, eu dormia no Lamas e na Pizzaria Guanabara) mas definitivamente não me ensinaram a ser dona de casa .
Eu passei um bom tempo rejeitando essa parte da vida. Até que chegou uma hora em que não dá mais.  Eu preciso virar uma dona de casa. E eu não sei porque os meus pais não me ensinaram!!!!!
Eles me contaram quem era Simone de Beuvoir quando eu tinha uns seis anos! Me explicaram quem era John Lennon no dia em que ele morreu. Falaram para eu ter raiva de freiras a várias outras coisas legais. Eles me levaram no comício das diretas quando eu tinha 11 anos.
Mas não me ensinaram a demitir uma empregada!
Acho que eles não ensinaram porque também não deviam saber fazer isso, mas enfim. Eles deixaram que eu fosse uma pessoa em quem as faxineiras mandam e tratam mal. E que mesmo assim releva. Mandar limpar um vidro? Não adrendi. Mandar alguém se foder? Aprendi.
Fazer uma lista decente de supermercado? Não sei. Fazer uma lisrta com os melhores discos de protesto da década de 70? Eu sei.
O que fazer se você era meio comunista e agora tem que demitir uma empregada!!?? O meu pai já morreu, mas tenho certeza de que ele não demitiria. Ninguém. Nunca. Se fez isso na vida foi chorando, porque demitir era coisa de gente de direita, e a gente era de ESQUERDA. A gente teve algumas empregadas quando eu era criança. Mas será que a minha mãe demitiu alguma?
Pergunta. Mãe, você já demitiu uma empregada?
Resposta. Eu acho que não.
“Ah, sim, teve uma que falava que o cachorro ia me comer e que me deixou com trauma porque falava que ia me abandonar sozinha no meio do Parque Guinle e que eu iria ficar perdida e nunca mais veria meus pais. “”Essa eu demiti na hora””, diz minha mãe com voz de orgulho. Era o mínimo, né?. E isso só  mostra que eles também não sabiam entrevistar babás! ”
A minha mãe tinha uma faxineira tão velha quando eu era adolescente que um dia ela jogou fora sem querer a única jóia da família. É que a dona Maria tinha ficado cega de um olho. Mas a gente não demitia, claro, porque tinha pena. E eu acho que a minha mãe estava certa.    “Agora, tenho que demitir minha faxineira e me sinto um monstro imperialista. “”Coitada dela””, diz a minha mãe pelo telefone, como se quisesse que eu continuasse com uma faxineira que não cozinha porque não sabe e não passa roupa porque não gosta ao invés de ter uma santa que vai cozinhar e ir ao supermercado.”
A obsessão dela é pela minha alimentação, uma coisa que Freud explica.
Mas melhor eu morrer de fome do que demitir uma empregada de acordo com a lógica meio intelectual meio de esquerda em que eu fui criada.
“Quando tiver uma filha, vou brincar com ela de uma Barbie demitir a outra, eu juro. Mas não garanto.

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