A arte de receber

Ou: como suportar visitas. Receber amigos é uma arte. É a arte de comprar guloseimas só para as visitas se sentirem queridas, de preparar a roupa de cama com um leve perfume de lavanda e de fazer a cópia da chave para os seus amigos. É a arte de comprar flores para agradá-los e espalhar bilhetinhos simpáticos pela casa. E deixar que eles leiam a melhor parte do jornal antes.
Quando eu era jovem e animada, minha casa parecia um albergue da juventude. Eu adorava receber amigos e minha irmã também. Adorávamos tanto que fomos ficando viciadas. Quando vi, estávamos também recebendo desconhecidos. Qualquer passante que pedisse abrigo poderia ser acolhido na residência. E ficar por quanto tempo tivesse vontade. Desta forma, o lar era freqüentado por roqueiros viajando de ácido, skatistas chilenos que faziam arruaça no prédio e queriam ficar morando por três meses de favor, qualquer gringa maluca de passagem pelo Rio, hippies que queriam vencer na cidade grande e até um francês que vagava pela residência bebendo vodca em cueca roxo-caixão.
Acabamos ficando com uma certa (má) fama no prédio, a ponto de porteiros acusarem os nossos hóspedes de roubarem toca-fitas na garagem.
“Isso sem falar na população flutuante – constituída por nossos amigos que tinham problemas com as drogas e que faziam de nosso lar-doce-lar uma espécie de “”retiro dos artistas junkies””. Hum, pensando agora com um distanciamento crítico, os porteiros tinham até uma certa razão em nos acusar!  Mas a gente adorava, pois achávamos que éramos “”super louquinhas””.”
“Até que você cresce, não é mais tão jovem e nem tão animada. E pega um pouco mal querer ser “”super louquinha”” depois dos trinta. Então você – ex-locomotiva social e ex-Vovó Stella – começa a dar jantares. Porque você adora receber e, num jantar, tecnicamente, as pessoas terão que ir para suas casas no final da noite. Se quiser você pode até lavar a louça ao som do Grupo Kaoma, porque não vai ter ninguém para te azucrinar.  É a liberdade de nossa era individualista. Dar jantares e servir petit gateau é muito mais fino, muito mais burguês e muito mais clichê do que deixar que mendigos da Lapa durmam no seu sofá. ”
Mas você já foi selvagem e maluca. Agora o bom é ir dormir sossegada na sua cama king-size.  Porque receber é uma arte, mas não receber é uma arte ainda maior. Que consiste em dar desculpas esfarrapadas para impedir que seus parentes e colegas te visitem. Embora acolher pessoas em sua casa seja muito mais nobre, impedir que os outros te visitem é bem mais divertido. Pois você pode ficar dançando sozinha em casa de calcinha pensando como você foi malandra ao se livrar das visitas.  Ao som do Grupo Kaoma!
PS.: Vocês, visitas que recentemente foram acolhidas em minha casa: este texto não foi feito para vocês. Mi Casa, Su Casa.

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