O surto coletivo do Bazar

Não se fala em outra coisa na cidade. Que Carnaval, que nada. Show do U2? Isso não foi nada. Em São Paulo, depois de uns dias no Rio, você chega e percebe que a cidade foi tomada pela histeria do bazar. É uma GRANDE histeria. Porque é um graaande bazar. Não é qualquer coisa. Trata-se de um bazar gigante do Alexandre Herchcovitch. Já na porta, as duas palavras estão escritas juntas: Alexandre Herchcovitch e bazar. Essas palavras, quando próximas, causam histeria. Repito: HISTERIA. ”
A começar, em mim. O momento mais dramático foi quando eu estava com um vestido lindo na mão falando a frase: está caro, mas eu vou levar. Eu tinha dúvidas entre o rosa e o preto. Até que chegou o amigo e me disse que não só o vestido era mais barato do que eu pensava, mas, sim, era uma pechincha. Não, eu não vou falar os preços aqui pra não parecer mais fútil do que já sou! Naquela hora, me apoderei dos dois, olhei para a Raq e dissse, sentindo que o diabo da moda tinha tomado conta de mim: mas então eu vou levar os dois!!
Não só. Porque levei um terceiro. Agora, no telefone, meu amigo comentava que aqueles vestidos iriram virar herança de família. Minhas filhas imaginárias vão brigar por eles um dia! Claro, comprei outras coisas também. Basicamente, eu consumi. Peças lindas e baratas. Surtei.
Depois, com nossas sacolas na mão, o amigo diz: ai, depois de comprar sempre dá culpa. O bazar é a compra sem culpa. Imagina, eu me culpo. Mas, ao mesmo tempo, lembrava que naquele momento não me faltva nada, nem sexo, nem um namorado, nada! Tudo aquilo que eu não tenho não tinha importância. Fôda-se que eu fui injustiçada por um homem fraco… eu tenho um vestido incrível de renda de caveira! .
Leio muito a respeito das minhas loucuras. E tem gente que diz que a compra não dá satisfação, só um prazer momentâneo. MENTIRA. Cheguei em casa e expetimentei a lingerie que custou 20 reais. Repito: 20 reais. Me olhei no espelho: eu estava linda. Essa frase é ridícula, mas é verdade. E o melhor é que lingerie de R$20 a gente pode usar com qualquer passante sem achar que está desperdiçando! Renda de qualidade para as massas.  
Chego em uma festa, algumas horas depois.Peço fogo para um grupinho: a camiseta só custa 25 reais, diz a menina. E começa a falar sua lista de compras. Depois chega uma amiga. A camisa que ela usava era do bazar, claro. E não se fala em outra coisa na cidade.
Um amigo ficou sentado esperando abrir no primeiro dia, contaram  que quando as primeiras caixas cheias de roupa foram abertas as pessoas gritavam.
“Ainda bem que a gente não está namorando, diz a Raq, senão a gente teria comprado presentes para os pretês.””  É verdade. A gente sempre faz isso. O que é bonito, quando se ama. Ainda bem mesmo, porque se eu ainda estivesse com o meu ex ele ia gongar as minhas compras, eu digo. Como assim?. A Raq e o Renato fazem essa pergunta como se alguém falar mal daquelas compras fosse um crime. Eu explico. Uma vez eu tive uma briga horrível, quase de chorar, com um ex logo por causa de um casaco do Alexandre comprado em uma liquidação. Uma amiga dele elogiou e eu respondi: é uma obra de arte, né?. Ele fez um discurso, como se eu fosse retardada, explicando que não era arte porque era um bem de consumo em série.””  Hahahahahahaha. ”
A verdade vai ser dita agora (já que na hora eu só fiquei com os olhos cheios de lágrimas e pedi pra ele não me agredir). A verdade é: eu prefiro mil vezes roupas a arte contemporânea. Quer dizer, bem mais que mil vezes!   
Como é boa a liberdade da compra sem crítica! Como é bom o surto! Como é bom o descontrol. Literalmente, o fashion descontrol. Como é boa a liberdade de expressão, sem o fantasma de ouvir um discurso sobre a importância do Tunga para a civilização.
E mais. Minha futilidade é um direito conquistado. Passei a vida achando que não era possível ser inteligente e vaidosa ao mesmo tempo. Que bom poder ser os dois. 
Ah, esse texto foi escrito ontem. Hoje, domimgo, as notícias sobre o bazar continuam. No almoço, minha amiga contava do vestido de seda que comprou. Outro amigo entrou no MSN para falar que ainda existem sete mil peças em caixas escondidas. Um amigo abriu seu saco branco e deu de cara com roupas erradas. O mesmo amigo que estava comigo ontem no Bazar chegou em casa, fez um desfile de moda e levou a casa inteira para o bazar.

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