Pobre do Contardo, que nem tem nada a ver com a história

Por Nina Lemos

Você foi lá, viajou para Recife, adotou uma gata nova, comprou várias botas, decidiu deixar o cabelo crescer, virou seguidora do Wander Wildner. Viveu aventuras malucas. Falou a frase “eu adoro meu estilo de vida”, trocou o Posto 9 pelo Arpoador. O Vegas pelo Bar do Rock.

Fez  novos amigos que são para sempre. Reencontrou um amigo. Transou com outro. Descobriu que sexo e amizade ainda combinam. Parou de sair em busca de bofes. Voltou a se divertir. Ficou viciada em aureliês. Também pegou gosto por karaokê. Viajou para o Chile. Pegou uma turbulência horrível.

Tomou mais gosto por usar salto, pediu aumento, lançou um livro, voltou para a ioga. Viciou em ioga. Comprou um secador de cabelos. Ouviu 59 vezes o disco novo do Chico Buarque. Levou um tombo. Voltou a ler Freud e a ouvir Iggy Pop (ao mesmo tempo). Cantou Legião Urbana para o Dado Villa Lobos em um videokê. Fez novos amados parceiros de trabalho. Voltou a  ler Walt Whitman com lágrima nos olhos. Passou a gostar de Mac, continuou a gostar de MAC, diminuiu o número de lágrimas despejados mensalmente em uma proporção que deve ser única na vida.

E um dia você acorda e tem um embrulho na portaria que parece um pacote do IML. Dentro tem um livro do Contardo. “Devolva o Contardo que você me tomou”, você ri. Tudo mentira. Ninguém tomou Contardo nenhum. Você que emprestou. E fora que você nem pediu de volta. Pobre Contardo, colocado num saco plástico transparente. Pobre Contardo, que nem tem nada a ver com a história.

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