A amabilidade daqueles que querem te fuder

Por Jô Hallack

Não são nem nove da manhã , camisolinha e remelas nos olhos. O telefone toca. Do outro lado da linha, ela é amável, uma simpatia só, quase amor, um anjo.
– Olá! Bom dia! Dona Giovana? É que você atrasou 3 dias e 15 segundos no pagamento da primeira parcela da renovação do seu seguro de carro.
Eu o que? Me arrasto pela casa tentando alcançar o pote de café.
E ela, mais doce que um suspiro:
– Mas não tem problema! Só que agora você terá que ir fazer uma nova vistoria!

Um segundo de silêncio enquanto tento digerir esta informação. Nova vistoria? O que isso significa? Como assim? Como? O quê? Dentro do meu cérebro, uma ajudante do mágico segura um cartaz onde se lê: “você se fudeu”.

Não! Não posso. Tenho trabalho, meu chefe não me deixa faltar, vou tirar meu pai da forca, levar as crianças na creche. Tenho hora no dentista. Vou passar o dia inteiro catando coquinhos. Não posso ficar nem mais um minuto com você. Juro que pago logo que o banco abrir! Ela, do outro lado, irredutível. Imploro. Imploro o perdão simpaticamente. Me humilho. Digo que mereço 100 chibatadas. Multa. Qualquer coisa para não ir fazer a vistoria.

E ela, fofa, muito fofa, mais fofa que todas as fofoletes do mundo reunidas num simpósio da fofura mundial.
– Ah! Agora não dá. Sem a vistoria não poderemos renovar o seguro do seu carro! Sim, seu carro, que está a partir de hoje sem cobertura.

Sim, essa piranha safada se fazendo de amiga quer mesmo me fuder. É isso mesmo. Começo a me transformar, neste instante, no monstro de Lockness, num minotauro, num chupacabra de pijaminha, num meteoro chinês a soltar fogo pelas ventas, numa besta demônia. Grito. Choro. Esperneio. Bato o telefone na cara da querida.

Apenas um gesto dramático idiota e inútil: eu me ferrei. E esta vaca ordinária ainda vem com educação. É essa gente que sempre gosta de nos fuder. Corretor de seguro, representante de plano de saúde, gerente de banco, são eles que nos tratam com mais amabilidade. Gerente de banco, agora, é “parceiro de relacionamentos”. Sim, gerente de banco, a entidade lucrativa criadora do juro do cheque especial! Parceiro de relacionamentos? Isso também inclui sexo? Ir ao cinema aos domingos?

Pois da próxima vez, exijo menos cinismo. “Sua idiota, você se esqueceu de pagar o boleto do seguro, otária, moradora do Rio de Janeiro, cidade que tem um roubo de carro a cada minuto. É mané, agora se fudeu. Vai para a vistoria, palhaça!”.
Isso seria mais justo. E uma lagriminha de puro ódio da montanha começa a escorrer enquanto eu procuro a minha calça jeans

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