Robóticas

Era bom quando chegava o garçom com aquele guardanapo dobrado. E te entregava com um sorriso cúmplice. “De um cavalheiro”. Você abria o papel meio amarfanhado e estava ali aquele pedaço de soneto roubado, uma cantada velha, um número de telefone, uma declaração de amor linda de um desajustado alcoólatra.

Quando a Infraero informa que os radares não estão funcionando e todos os vôos vão atrasar pelo menos uma hora, me desespero. Tenho um texto para entregar. Abro meu computador, um pouco envergonhada. Vou me tornar parte integrante da horda de idiotas que ficam em salas de aeroporto com seus notebooks de última geração ligados enviando bytes de inutilidade para o mundo. Era bom quando a gente ia em aeroporto ver avião decolar. “Desculpe chefe, atrasei o trabalho porque tenho vergonha de abrir computador em público” . Hum, sinto que ele não será tão compreensivo.

Avanço sobre o teclado. Corro para ver se consigo terminar tudo antes do vôo, sem previsão, como informa a moça de voz sexy nos alto-falantes. Até que uma mensagem entra na minha tela. “Mobile 171 enviou arquivo, download de arquivo iniciado.” Tecnologia Jetsons. Alguém acaba de me enviar uma mensagem através de um telefone celular para o meu notebook. Cancelo a operação imediatamente e olho ao meu redor como se estivesse num filme de espionagem. Procuro um suspeito. Alguém com um telefone da marca Mobile modelo 171 na sala de embarque do aeroporto de Brasília. E esse arquivo? Será um vírus? Uma declaração de amor? Tudo acabará entre os lençóis do Hotel Aeroporto?

O sujeito – ou a criatura, já que vida é unissex – é insistente. Mobile 171 enviando…. e enviando, e dá-lhe a cancelar download. Mas porque não? Vai que é o Senador Suplicy querendo me pagar um café! A tecnologia não está, desta vez, do meu lado. “Extensão de arquivo não reconhecida”. A voz sexy diz que o avião já pousou e os passageiros devem se dirigir para o portão de embarque, crianças, velhos, grávidas, estúpidos e portadores de colares ortopédicos Minerva têm preferência.

Era bom quando chegava o garçom com aquele guardanapo dobrado. E, só com o olhar, segredava quem era o rapaz apaixonado.

(Jô Hallack)

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