“Com você, eternamente estarei” (crônica da doidice anunciada)

Pense num amor daqueles. Agora, pense num vexame.

Tudo começou quando um novo síndico foi eleito no prédio e começou a realizar benfeitorias para grande alvoroço dos condôminos. A primeira obra do recém-empossado sujeito: uma sauna, sadio espaço de confraternização dos vizinhos. Dia desses, lá estávamos – eu e a minha colega – quando entra este senhor simpático que eu nunca tinha visto mas que, coincidentemente, mora exatamente dois apartamentos abaixo do meu. Chegando aos sessenta, carioca da gema, quatro filhos, engenheiro, dois casamentos desfeitos.
– Me casar de novo, nunca – diz ele lá pelas tantas.
– Nunca diga “nunca” – retribuo irônica e clichê, gotinhas de suor escorrendo pelo corpo. Como é fácil ser clichê em trajes sumários.

Continuamos nossa sauna até as dez, horário do fechamento segundo o regulamento. Entramos os três no elevador – ele ainda de sunga, típica falta de cerimônia masculina, e com uma toalha pendurada no ombro. E que vem a seguir não é um ménage a trois. Infelizmente.

O elevador subindo e o papo ótimo. Até que, sem querer, meus olhos fecham um ângulo na toalha do coroa. Tem um bordado em ponto de cruz. De um brasão. Um brasão de um time de futebol que eu conheço muito bem. Me perguntem o nome do artilheiro, o saldo de gols, peçam que eu cante o hino, que explique a polêmica do campeonato de 87, que diga qual foi o recorde de público em seu estádio: 56.875 pessoas, incluindo não-pagantes.

E por que eu – Fluminense desde criancinha – sei de tudo isso? Sim, é uma boa pergunta. Afinal, é um time da segunda divisão, de uma cidade distante, um time do qual eu nunca tinha ouvido falar na vida. Até esbarrar num cabra torcedor aficionado, cabra que cometeu falta grave e praticou o anti-jogo amoroso. O matemático Oswald de Souza surge no meu cérebro explicando que a probabilidade de um sessentão carioca da gema estar com aquela toalha num elevador do Rio de Janeiro é de 0,000000001 em dois bilhões de trilhões. O seja: se trata de uma explícita provocação da vida, uma afronta ao meu coraçãozinho tricolor partido. E aquilo não pode ficar assim!

Dentro da minha cabeça, começo a ouvir coisas. “Porrada! Porrada!” O senhor da sauna sorri. Olho para o cronômetro. São quarenta e cinco do segundo tempo, o elevador se aproxima do quinto andar. “Porrada! Porrada!” Meus neurônios são a própria torcida jovem, na geral, final do jogo, última rodada do campeonato, o time perdendo depois de um pênalti roubado, juiz ladrão e esse técnico que é um filha da puta. “Porrada! Porrada!”, gritam todos. Por sorte os verdadeiros hooligans se encontram dopados com doses cavalares de oxcarbazepina, senão acho que me transformaria num demônio ali mesmo, virando olhos, espumando raiva e constrangendo a vizinhança. Mas a torcida jovem quer sangue.

Encaro feroz o coroa e sem a menor cerimônia (e provavelmente com semblante de louca) o interpelo de forma agressiva e acusatória, pausadamente.

– Onde o senhor arrumou esta TOALHA?!!!!

Ele me olha chocado, gagueja e – tenso – procura uma explicação, como se achasse que estava mesmo sendo julgado por roubo de objetos na sauna e me devesse satisfação E querem saber o pior: ele não tem uma explicação convincente.

– Não sei! Nem é minha, peguei lá casa, a primeira que vi – diz, em pânico, enquanto a minha colega arregala os olhos como se dissesse “interditem essa”.

O juiz apita final de jogo e a porta do elevador se abre. O batalhão de choque parte com cacetetes para cima da torcida organizada. Por uma fração de segundos, volto ao meu estado de normalidade. Embaraçada, eu – cruzamento de Carrie, a estranha com a Besta do Irajá – tento me desculpar. Digo que só achei curioso ele ter uma toalha daquele time, série B da existência.
– Para mulher até que você entende de futebol, hein?
– Ela entende de “ex” – explica a minha colega, enquanto o pobre, ainda zonzo por ter sido atacado por uma maluca passante do sétimo, sai do elevador e quase escorrega e cai.

Só me resta comprar uma caixa de bombons e deixar na soleira de sua porta. Esse, com certeza, nunca mais se casa de novo. Se lhe restava alguma dúvida sobre a loucura feminina, resta mais não. Quanto a mim, abram as portas do hospício e botem água no feijão que eu tô chegando.
Pois essa vida é mesmo da fuzarca.

(Jô Hallack)

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