Maldita culpa católica

Eu sei que eu ando rindo demais. Eu sei que eu ando saindo demais. Sei que eu ando vivendo demais. Depois de um longo e tenebroso tédio, voltei a sorrir e seduzir. Eu sei que eu ando causando demais. Falando demais, dançando demais. Dormindo tarde demais. Outro dia mesmo cheguei a perder a voz na manhã depois de tanto que eu falei e eu gritei.
Ando conhecendo gente demais, fazendo novos amigos demais, inventando amores demais. Resumindo: dentro do possível, a vida está boa.
No meio do caminho entre um momento de euforia e outro, esqueço o celular no táxi. Perda total. No dia seguinte, o gato Tonico despenca da janela do primeiro andar (passa bem, obrigado). A minha casa vira um caos. Tento jogar coisas fora e paro no meio. O escritório vira um mar de papéis e eu ando por cima deles desviando.
E começo a pensar que é tudo castigo. Quem mandou se divertir tanto, garota! Quem mandou receber de braços abertos novas pessoas? Quem mandou pegar o amigo na frente de todo mundo? Agora estou sendo castigada! E, o que é pior, a culpa é toda minha, que me divirto tanto e depois não consigo cuidar da minha casa e da minha família (eu e dois gatos, no momento).
Isso é tudo culpa católica, minha filha. A velha e boa culpa que nos acomete depois de vida intensa. Deixo os papéis jogados pelo chão. E pergunto: onde é o próximo encontro? Onde tem gente legal? Eu vou. A culpa? Vai pro lixo junto com os papéis velhos um dia desses.

(Nina Lemos)

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