Confissão nerd

Ah, é só uma olhadinha. Só para ver como é.
A última vez que eu disse isso foi quando entrei para o Orkut. E o que aconteceu, vocês já sabem. Porque, provavelmente, também aconteceu com vocês. Fiquei de madrugada trocando scraps e fazendo amizade com passantes. Perdendo as horas do meu soninho da beleza.
Depois, tive que fugir de chopes com ex-alunos da minha turma da sétima série.

Eu sabia que não ia ser só uma olhadinha. Mas estava chovendo para chuchu e eu estava com tédio.
E foi assim que resolvi entrar para o Second Life.

Como tudo na internet,você tem que começar preenchendo formulários sem fim. Mas está chovendo, não tem nada melhor para fazer, então, tudo bem. Vamos lá.
Qual seu nome? Sobrenome?
Torce para o América? Cospe ou engole? Cor preferida?
Já foi passar as férias em Lambari com a família?
Tem problema de unha encravada?
Já fez macumba por causa de amor? E por falar nisso… qual o número do seu cartão de crédito?

Claro. É assim que tudo sempre termina na internet. No Second Life, para você ter o “dinheirinho virtual”, o tal do linden, tem que dar o número do cartão e…. pagar. Ou, senão, concordar em ser pobre no mundo virtual. Que, obviamente, foi o que eu fiz. Sou nerd mas nem tanto. Por isso, lisa e com um modelo cafona de gótica japonesa futurista clichê, eu adentrei no ciberespaço. Superestranho.

Fui parar numa ilha tipo Lost e fiquei vagando apertando as setas do teclado. De repente,encontro um outro ser vagante. Brasileiro. E outro. Outro e outro. Os brasileiros invadiram, como tudo na internet. Fiquei conversando com eles, mas todos não sabiam também o que fazer. Uns tinham cara de meu-querido-pônei e outros de rapoza zebrada. Ficamos ali no ócio. Proponho um arrastão. Todos me ignoram e continuam andando desgovernados. Encontro com um outro brasileiro e falo que devemos promover um roubo. Ele se interessa. “Como faz?”. Será que ele achava que era só apertar ctrl+alt alguma coisa e roubar alguém?

Convenço a minha colega (real), via msn a entrar também. Estou muito empolgada e ela diz que nem morta. Mas ela é convencida pelo argumento “é só uma olhadinha. Só para ver como é. Senão você vai perder o bonde da modernidade e não terá o que falar em rodinhas”. Logo ela entra. Nos encontramos. Vamos juntas numa “praia” e cada um senta numa “cadeira de plástico”.
– Tem protetor solar? – pergunta o boneco dela.
– Não – responde o meu.
– Isso aqui é meio chato.
– Então vamos dar uma volta.

Nos separamos. Tento entrar numa casa legal mas começa a aparecer uma mensagem malígna: “Você está invandindo uma propriedade particular. Saia já!”. Droga. De repente, vou parar no Museu da Fficção Científica e não consigo sair de lá. Estou achando um saco. Não tem ninguém e, ainda por cima, o computador começa a travar. Mas minha colega está se divertindo. Pois ela começa a presenciar um bacanal e a me contar, via messenger.
– Dois homens estão comendo uma mulé!
– Ah, por favor, me teleporta para aí – peço.
Ela tenta me “teleportar” e não consegue, pois o sistema está ocupado. A coisa começa a esquentar
– Ele está arrancando as minhas roupas!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
No meu lugarzinho, nada acontece. Agora descubro que ainda posso ficar brincando com um cubo. Eu, brincando de cubo mágico enquanto quatro nerds ficam fazendo sexo virtual.
Eu começo a ficar nervosa
– Me teleporta, eu imploro!
E nada. Second life could not teleport you. Try again in a few minutes.

Minha colega sendo enraba por um homem do Vietnã. E eu, trocando o pôster do Ataque dos Monstros para o pôster do Guerra nas Estrelas. Minha colega sendo carcada por um sujeito de Leste Europeu. E eu, “criando” uma bola. Minha colega sendo bulinada por um rapaz mexicano. E eu, conseguindo,através dos comandos, sentar numa cadeira e levantar. Sozinha na porcaria do Museu da Ficção Científica.

Revoltada e movida pela inveja,resolvo apelar:
– Você pode estar fazendo sexo virtual com uma gorda nerd e espinhuda brasileira – digo.

Ela não liga muito. E eu fico apertando os botões nervosa.Até que eu consigo ser teleportada. Oba! Vou participar da suruba!

Mas em vão. Os surubeiros me ignoram. Desisto.
Só me resta escovar os dentes e colocar meu pijama, às quatro e meia da manhã. Para acordar em algumas horas, para uma reunião. Com olheiras e, ainda, uma virgem virtual.

Às vezes, o mundo é injusto. Até mesmo no ciberspace.

(por Jô Hallack)

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