Minha amiga, a secretária

Pela porta de vidro, a secretaria da Siderúrgica Ibiraçu me dá olá.
E eu, dou olá também. Como se ela fosse minha amiga. Uma tia. A professora do pré-primário. Uma mulher que sabe das coisas. Dou olá e toco o interfone do outro lado do corredor e, então, a porta se abre e eu desapareço.

Toda semana é assim. Depois, a porta se abre de novo e eu saio. A secretária da Siderúrgica Ibiraçu fala ao telefone, anotando um recado para o Seu Siderúrgico. Mesmo assim, ela levanta os olhos e me cumprimenta. Me abre um sorriso. Me dá um adeus. Um fique forte. Um deixa estar.

A secretária da Siderúrgica Ibiraçu senhora gorda, deve ter uns sessenta, está sempre ali, para mim, e para todas as minhas dores.Quando eu espero, atordoada, a porta se abrir, ela – atrás de sua mesa – apenas me dá um sorriso de apoio. Quando eu saio descabelada e com os olhos mareados pré-tsunami, ela é a única testemunha antes que eu coloque os óculos escuros gigantes para fingir que nada acontece.

– É, minha filha, a vida é mesmo difícil assim – parece dizer a secretária da Siderúrgica Ibiraçu, tintura 35 louro, um sobrinho, moradora de Maria da Graça, espanhol fluente que aprendeu com o ex-namorado Ramón, ah, aquele maldito que quebrou seu coração. Isso.Ou qualquer outra biografia que eu invente para ela.

Enquanto ela inventa a minha, no vácuo do escritório. A minha e de todos os outros doidos que freqüentam consultório do analista que fica bem em frente ao seu serviço.

(por Jô Hallack)

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