Água preta do cabelo do formigão

Eu sou mulher caixa preta, aquela que vai para a esbórnia de cara limpa e que volta mais sóbria ainda. Eu lembro do que você fez no verão passado, me lembro das promessas que os bêbados sussurram e de tudo que é feito pelos botequins, até mesmo aquelas coisas quer todo mundo gostaria de esquecer. E eu também.

Eu me lembro das farras, dos absurdos e das declarações de amor. Até mesmo das erradas. Dos choros comovidos, eu me lembro. E das pomba-giras que desfilam em frente a minha timidez. Eu me lembro de todas as dores.

Enquanto o mundo se esquece da vida entre uma cachaça e outra.

Quando todos riem e acham graça de coisa que não tem graça alguma, às vezes eu também rio. Pego no tranco, engato a segunda na ladeira e acho a vida engraçada. Em outras eu quero chorar. Eu não acredito em saideiras.
A vida de quem não bebe é assim: um fígado intacto, mas tem que ter estômago.

Por inonia, eu não sou a minha própria caixa preta. E sou encontrada por mim mesma em situação desconcertante e triste, olhando para o teto do hall do elevador. Eu sou a caixa-preta do mundo.

(por Jô Hallack)

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