Freud e a xêpa

Minha sessão de análise termina sempre da mesma forma. Sr. O vai até a porta, nos olhamos nos olhos e apertamos as mãos. Desço pelo elevador e atravesso a galeria do Palácio Astória, passo pela loja de sapatos e pelo salão de beleza e é aí que chego na calçada. Perturbada, geralmente.

E foi assim que tudo aconteceu. Oito horas da noite, o bairro ficando deserto e uma banquinha de frutas com dois sujeitos querendo se livrar da mercadoria.
– Quero um mamão – disse eu. – Quanto é?
– Um real. Leva seis que eu faço por cinco.
– Levo dois. Um pode ser mais verde. E que fruta é essa?

Aponto para um engradado com uma frutinha meio psicodélica. E, a partir daí, não sou mais responsável pelos meus atos.
– É um fruta amazônica, prove – diz o mais moço.
Achei gostosa. Comprar uma meia dúzia para servir de sobremesa exótica. Vinte oito reais (!!!) o quilo. Foi aí que começou.
– Enche este saco que ela vai levar – disse o mais velho
– Eu? Calma aí, na verdade eu acho que preferia uma manga.
– Então coloca tudo! Ela vai levar tudo!
E o mais moço obedecia e enchia a sacola com a fruta obscura.

E eu, eu simplesmente não conseguia dizer não.

– E morango também. Ela vai levar duas caixas de morango.
– Eu não quero morango!
– Prova o morango!
Ele me obrigou a provar e eu, tentando fugir da situação com um par de mamões e ir para casa chorar minha existência – resolvi apelar levando duas mangas, para ver se assim despistava. Não adiantou. O mais velho começou a me esculachar, enquanto me empurrava mais e mais frutas. Com a estratégica básica para esculachar com gosto uma mulher: elogiar antes.
– Olha só, você é uma coisa linda, mas é ruim de gastar, hein!
E enquanto o meu ego fazia festinha interior, dá-lhe fruta exótica daqui, morango de lá. E ele palestrando e me maltratando e sem sorrisos.
– Quando sair para a rua, minha filha, você tem que levar o seu espírito gastadeiro. Não pode ser assim não. Bonita pode ser, mas tu é ruim de gastar. Que dificuldade de arrancar qualquer um.

Tentei dar uma de dona-de-casa com cursinho de economia doméstica.
– Assim você vai acabar com o meu dinheiro!
– É ruim, hein. É ruim deu acabar com o seu dinheiro.

A bofetada no meu rostinho pequeno-burguês foi acompanhada de uma ordem.
– E vai levar também toda essa cereja!

O fim da história: minha geladeira com um quilo da fruta amazônica e mais frutas e frutas. E a conclusão: toda pessoa precisa de um apoio psicológico depois que vai ao psicólogo. Pelo menos alguém para te colocar numa condução. E te proteger do vendedor de frutas.

(por Jô Hallack)

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