Eu vou entrar pra contravenção

Abri a janela do quarto para os macacos e foi então que ela entrou, No começo, tinha o corpo de capivara, mas eu a reconheci ainda assim e aí o corpo de capivara sumiu e ela se transformou no que era: uma onça, uma onça mesmo,no meio do quarto. Eu tinha medo, mas deixava ela chegar perto de mim, eu queria tirar uma foto, ter uma prova, uma recordação, era uma espécie de medo maravilhado que nem quando a gente percebe que está a ponto de se apaixonar por alguém. De repente, eu estava atrasada para a reunião de dez e meia, fui andando até o carro. Abri a porta mas, antes de mim, dois urubus entraram no Fusca. Eles não entraram voando, não. Só deram um pulinho, do chão para a cadeira. Merda, esses urubus vão me atrasar, eu pensei. Então acordei e ouvi o barulho do café borbulhando na cozinha.

Se fosse terça-feira eu ia esperar até duas e vinte e, então, deitada no divã olhando, como sempre, para os prédios da Visconde de Pirajá, eu diria:
– Eu hoje sonhei com uma onça. E também com os dois urubus. E portas e janela que eu abria. O que será que isso significa?
E ele, mais esfinge do que nunca:
– O que você acha que significa?

Mas era quarta, nove e trinta e cinco da manhã, eu já quase atrasada para a reunião de dez e meia. E resolvi jogar no bicho, na banca que tem no caminho do escritório. Pela primeira vez na vida. Totalmente inexperiente, me aproximei da vendedora de incensos que fica na esquina do escritório, entre o homem que conserta cadeiras e o vendedor de super-bonder e pilha.
– Me ajuda a jogar?
– Foi sonho?
– Foi
– Sonho tem validade de três dias – ela disse, com muita autoridade.

Dez e vinte e três e eu ali, parada na rua, ouvindo essa revelação. Que sonhos têm validade! E de três dias, olha só, que maraviha máxima!
– E foi o que?
– Urubu e onça.
– Urubu não tem. Nem onça.

E agora? A pensar: Deus foi me dar um palpite, mas deu interferência.
– Tem o que?
Ela começou a desfilar uma verdaderia arca de Nóe. Resolvi apostar no tigre (praticamente uma espécie de onça, só que em vez de bolinhas vem em estampa de listras) e também no gavião, no lugar do par de urubus. Daí a vendedora de incensos segurou no meu braço e disse:
– Manda cercar tudo no milhar.

Dez e vinte e nove, e eu, uma virgem no jogo do bicho, olhei para o apontador que me vê passar todo dia por ali e, meio nervosa, fiz exatamente o que ela mandou. O melhor de tudo foi o negócio de cercar no milhar. Pensei que ia me dar uma moral, mas ele só observou meu blefe com tédio, rabiscou uns números num papel com a assinatura e um carimbo escrito “Unibanca”. Esse é o nome da banca do bicho da esquina. Uma genialidade. E ainda acham que Piauí é um bom nome para revista!

Voltei lá três e meia, me sentindo a mais popular das criaturas ao conferir resultado do bicho no poste. Deu pavão. Sonhos são tontices, devaneios em lugares impróprios, para que a gente ache que a vida vai ser uma coisa que raramente é. Sonhos são contravenção, assim como o amor desmedido que é desmedido senão não seria amor. Sonhos não servem pra nada, só pra tentar ganhar uns trocados.

(por Jô Hallack)

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