Pelo engarrafamento eu vejo o mundo

Parados no sinal.
– Olha só quanta mulher em volta.
E olhei. O engarrafamento de sempre em Botafogo.
Ele emendou o raciocínio
– Ficam só atrapalhando. Não tem o que fazer. Ficam saracoteando por ai, atrapalhando a gente que tem que trabalhar.
Movida, talvez, por um certa falta de inteligência, resolvi argumentar
– As estatísticas mostram que os homens se envolvem mais em acidentes de trânsito do que as mulheres.
– Mas é justamente por isso. Elas atrapalham o trânsito e eles batem. Mulheres são umas desocupadas. Já que não trabalham, tinham que ficar em casa.

Tive vontade de jogar meu relatório imaginário do IBGE no colo do motorista de táxi, mas respirei fundo. “É um senhor de idade, de outros tempos”, argumentavam alguns dos meus neurônios. A facção rebelde, este dia, não se manifestou como de costume. Até meus neurônios preferidos estavam descrentes da eletricidade. Mundinho machista. Não pelo comentário daquele senhorzinho rabugento, que poderia até ser folclórico, para a gente rir depois em mesa de bar. São machistas aqueles homens que nos freqüentam.

O silêncio no carro, apenas o barulho do trânsito. Ele tentou quebrar o gelo.
– Mesmo assim mulher é a melhor coisa do mundo. Conhece aquele samba do Jamelão? “Samba me eleva a alma, a mulher me tira a calma e a bebida me faz esquecer…”

Se fosse outro dia, talvez eu achasse aquilo lindo. O taxista velha-guarda seguiu cantando outros sambas mas, naquela quinta-feira, a belezura da vida tinha tirado férias. Que mundinho merda.

(por Jô Hallack)

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