Tentação do capeta

Costuma ser assim. Você volta de um país incrível e percebe que a sua vida está um lixo. Bastam poucas semanas para que você evolua espiritualmente. E, sim, aviso que o caminho da iluminação para freaks como eu e você, leitor, chama Berlin, e fica na Alemanha. Nada de Santiago da Compostela. Isso é coisa para escritores ricos. Os escritores um milhão de vezes menos abastados alcançam a elevação espiritual em lugares como Berlin.

Sim, explico. Lá você não vê pessoas ostentando fiozinhos brancos de i-pod no metrô. Eles usam qualquer MP4 mesmo. As pessoas também não ficam nesse papo de ter cadeira com nome de gente, aqueles objetos de design que valem uma grana. Pessoas bacanas montam casas inteiras com móveis do mercado das pulgas que custam uma pechincha. E nada de grifes, imagina! A cidade tem mesmo é um monte de brechó. O maior índice deles por metro quadrado já visto por essa que vos escreve. E muitos squats, aqueles prédios comunitárias que povoam nosso imaginário punk desde a infância. E, sim, ainda tem essa. As pessoas não estão numas de se matar de trabalhar e consumir, consumir, consumir. Berlin ñão é assm.

E você volta transformada, acreditando seriamente que alguma coisa de muito importante acontece naquela cidade estranha e que você foi atingida.

Hora de escrever em primeira pessoa.

Chego do meu Santiago da Compostela e ligo para a minha mãe:

_Tomei várias decisões. Não vou mais comprar roupa, eu fico nessa onda de consumo porque sou insatisfeita com a minha vida. Chega de faze o jogo do capitalismo. Também vou parar de andar de Táxi e agora vou andar muito a pé.

_Ah, e você também vai andar de metrô?, ela diz, conhecendo bem a filha que tem. Ela diz que aquilo não vai durar uma semana.

E na véspera de uma viagem para o Rio de Janeiro recebo um convite:

“Você é convidada para o primeiro dia do bazar do Alexandre Herchcovith”. Fodeu. O diabo foi ali no Rio e armou uma armadilha filha da puta só para me testar. Mas nào, vou ao bazar só dá uma olhada. Até parece. Fui duas vezes em um final de semana e saí com a mão cheia de sacolas. E frustradíssima com a minha falta de firmeza ideológica. Sério.Mal humorada mesmo.

Um bazar provou que a minha utopia pessoal ainda é inviável. Mas me deixou cheia de roupas novas e baratas. Droga.

(Nina Lemos)

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