Os donos do açougue

Ok. Vocês bem que mereciam um post mais feliz de penúltimo dia de ano. Eu também queria falar sobre coisas mais agradáveis. Mas não dá. Denúncia óbvia: mulheres não têm o direito de ir e vir no Brasil. Não sem ouvir impropérios, agressões e cantadas baratas. E grossas. Essa pobre alma que vos escreve foi parar ontem na Lapa, Rio de Janeiro, quatro da manhã, com duas amigas (por um acaso idiota do destino, mas não importa). O fato é que 3 mulheres passaram 15 minutos escutando de adolescentes bêbados agressivos toda a sorte de baixarias em tom de poder (que eles têm mesmo, infelizmente, já que vagam bêbados pelas calçadas gritando pra moças que elas são “gostosas pra caralho” e nada,nada acontece com eles.
Homens e adolescentes de 16 anos simplesmente podem andar por aí como donos do mundo convidando em tom de intimação as meninas para entrarem nos seus carros, tomarem uma saidera ali na esquina. Tudo num tom que dá medo. A que vos escreve e as duas amigas trataram todos os homens que apareceram em grupinhos falando absurdos super bem. Isso porque tiveram MEDO. Claro, medo. Eram moços muito poderosos, mais fortes que a gente. E bêbados. Os donos da rua. Um caminho que transforma imediatamente as mulheres que o cruzam em vítimas de impropérios e passadas de mão na bunda.
Sim. Passaram a mão na nossa bunda. Não, não tinha polícia. Mas se tivesse, que diferença faria? Mulheres andando na Lapa quatro da manhã MERECEM mesmo isso, não? Provavelmente esse seria o pensamento dos policiais.
E quem defende as meninas? Ninguém. O conhecido que aparece diz para que elas tenham jogo de cintura e “relaxem”. Claro, pra ele é fácil. Ele tem pau. E quem tem pau é dono da rua.
Esperamos que em 2008 a gente ganhe o direito de andar nas ruas da cidade.
“Eu só quero é ser feliz. Andar tranquilamente na favela onde eu nasci. E poder me orgulhar.”
Ai, que utopia distante…
E qual é a solução? Como tirar esse gosto amargo da boca? Como olhar a indiferença dos dois meninos teoricamente “gente boa” diante da carnificina sem sentir esse gosto amargo na boca? Como?
Escrever sempre textos revoltados resolve? Mudar de país, será?
A vida é dura para as meninas do nosso Brasil.

(Por Nina Lemos)

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