Nos ares, e nua

– Por que compramos uma passagem para domingo de madrugada quando temos que trabalhar na segunda?

O amigo que encontrei no aeroporto está com problema de amnésia e eu explico. Compramos passagens para domingo de madrugada porque queríamos aproveitar o verão até o último minuto. Literalmente. O painel de controle dos Guararapes avisa: o vôo parte meia-noite. Recife para Porto Alegre, com escalas no Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Brasília, Guapemirim, Vassouras, passando ainda por Cuba e Maceió.

Vôos noturnos. O único problema é a impossibilidade de usar óculos escuros, grandes óculos escuros, óculos escuros de Jackie O. que escondem os seus olhos vermelhos e marejados, olhos de despedidas. O avião acelera, adeus, adeus. E depois, desiste. O comandante avisa que temos um problema. Portas abertas, segundo o computador de bordo. Vamos ter que retornar para averiguações. Ensaio uma reclamação. Se tem uma coisa boa no caos aéreo é isso: temos assunto com os outros passageiros. Podemos abordar desconhecidos com um álibi. Primeiro algo clichê, como a dificuldade se se viajar no Brasil. Logo depois já estamos abrindo nosso coração, falando da família e das nossa fraquezas de saúde.

– Era só que faltava – digo, bufando.
– Pense bem, é melhor ter este tipo de problema antes da decolagem do que depois – retruca o 21F, uma espécie de Buda da aviação, enquanto a 21D pede que eu tire uma fotografia.

Depois de um entra e sai da avião, finalmente decolamos. Eu desmaio de sono. E acordo na Guanabara, com torcicolo e os peitos de fora, resultado de um top moderno meio tomara que caia com uma amarração fashion. O Buda da 21F está dormindo, por sorte. Mas a moça do 21D olha para aquela cena de nudismo involuntário e esboça um sorriso solidário (e irônico) diante de meus mamilos eretos com o ar condicionado. Uma das minhas havaianas onçadas desapareceu na aterrisagem. Tenho sono e resolvo sair do avião descalça, agora já com roupas. Até que o colega da 19F desaparece sob as cadeiras e volta triunfante com meu chinelo.

Na esteiras das bagagens, reencontro meu amigo.

– Bom 2008! – diz ele

Eu acho um exagero. Por enquanto, eu só quero uma boa segunda-feira.
E sei que ela não virá.

(por Jô Hallack)

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