Homem é cafona

Foi assim. O rádio ligado no táxi, hora dos comentários esportivos, e o amigo taxista opinando. Taxista tem que opinar. Senão, melhor que mude de profissão.

O objetivo era descascar o locutor, que só falava besteira, uma atrás da outra. “Até já escrevi uma carta para reclamar, que foi lida no ar, falaram meu nome e tudo”, garantia. O locutor, emendava ele, não dava uma dentro, era são-paulino doente, sem graça e só dizia coisa sem noção. Tem mais: não pensasse ele que estava enganando os ouvintes. Dava para perceber pela sua voz que ele era viado. “Isso não é voz de macho”, explicou. Embora eu não concordasse com o veredicto, era ele quem passava o dia inteiro ouvindo o rádio. As vozes que vinham dos autofalantes da sua Parati (e tambeem do banco de trás) talvez tivessem lhe dado a habilidade de desenvendar personalidades através do som. Quem era eu para questionar!

Sem ser perguntado, porque taxista que é taxista comenta sem que você pergunte mesmo. O passageiro deve sempre ser coadjuvante e servir de escada, pois este é o seu papel, além de pagar a corrida – então, sem ser perguntado, ele resolveu deixar bem claro a sua opinião sobre a sexualidade de todos os locutores daquela emissora. “É uma rádio de viado. Não tem macho. Está na cara”. Sobrou até para o elenco feminino, que de feminino não tinha nada. A importante comentarista do noticiário econômico tinha voz de homem, ela era viada. O sujeito do programa de tarde era mulherzinha. E outro, o outro. Só escapou mesmo o repórter aéreo.

Até que a conversa foi para a televisão. A brincadeira era a seguinte: eu lançava o nome do apresentador, ele dava o diagnóstico. E o casal do jornal? E o homem que apresenta o reallity? E aquele? E aquele outro? Até que chegamos à opção sexual do apresentador do programa de auditório das tardes de domingo que, segundo o valioso motorista, também era um chato, não dava uma dentro, um infeliz.

“Com aquele cinto que ele usa? aquele cinto com fivelão… é homem. Homem que é homem é cafona. Aquele fivelão feio é coisa de macho!”
E fim da linha.

(por Jô Hallack)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s