O vírus Berlim

É tipo uma doença. Uma doença maluca que te pega. Eu devia prever que algo de estranho me aconteceria quando, ano passado, avisei para alguns amigos que iria para Berlin. “Eu sou o Rei de Berlim, eu sou o Rei de Berlim”, gritou um. “O Antonio disse isso?” “Imagina, o Rei sou eu”, respondeu outro amigo. “Ah, o Alexandre estava lá, foi para ficar duas semanas e ficou três meses”, contou a Raq.

Fui. Enlouqueci. Pirei de uma maneira que não dá para explicar. Basta dizer que comecei a freqüentar sites de agencias de aluguéis de apartamentos em Berlim enquanto o Igor me dizia: “por 400 euros você mora aqui do lado”.

Voltei insuportável e encontrei o tal amigo que acha que ELE é o Rei de Berlim. Pensamos em criar um grupo que se encontraria só para falar sobre Berlim. Seria útil. Pois chega uma hora que nenhum amigo te agüenta mais. A mesma coisa que acontece quando você está apaixonada. Ei, e quem disse que isso que sentimos por Berlin não é paixão?

Fiquei um ano pensando nela, a cidade. E voltei, claro. Só para confirmar que eu amo Berlim desesperadamente. E que eu não posso, assim, viver sem ela.

“Quanto tempo faz mesmo que você veio aqui da última vez?” “Um ano”. Depois de ouvir essa resposta, Marie, que se apaixonou por Berlim há 15 anos, teve um ataque de riso escandaloso. “Tá rindo de quê? Da maneira como eu fiquei abduzida por Berlin tão rápido?” O próximo ataque de riso dela, que fez com que ela praticamente sentasse no chão de tanto rir na frente da estação de kotbussetor, confirmou minha pergunta.

Ela ria porque sabia que eu fui pega. Estava irremediavelmente apaixonada. E como o amor é cego, voltei de novo para o Brasil alugando os amigos com as maravilhas de Berlim. São coisas desconexas, que não consigo explicar direito, mas que é mais ou menos assim. “Ah, lá é vazio e silêncio. Ah, as pessoas não são viciadas em plástica. Sabia que lá não existe produto diet?” Ou. “As pessoas não perguntam o que você faz. Também não usam roupas de grife.” E o exagero atinge o ápice quando apelo. “Ah, sabia que lá um monte de gente não trabalha porque não quer?”.

Claro que lá existe roupa de grife e óbvio que as pessoas não trabalharem não é exatamente bom. Mas apaixonado é cego.

O jeito é tentar abduzir os amigos para que eles também fiquem doentes e por isso te aturem. Dá certo. “Tô escrevendo sobre Berlim”. “Sobre a doença?”, pergunta o Rogério, completamente abduzido.

O que você, ser apaixonado, faz quando volta de Berlim? Fala sobre Berlim e sai procurando outras pessoas da seita. “Tô mudando para lá em fevereiro”, diz um. “Ano que vem estarei morando lá”, diz outro.

E toda noite, antes de dormir, você pensa nela. E sonha com ela. E quando sai na rua pensa. “E como seria se eu estivesse agora… em Berlim”. A paixão é um horror, você diz para si mesma, enquanto alguém da seita te avisa, histericamente, “Sabia que está nevando em Berlim?”. E você responde: “ai, que lindo.”

(Nina Lemos).

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