Considerações sobre o fim do mundo

Ninguém precisa se apavorar com o aquecimento global. Venho, por uma série de artigos inúteis, provar que o mundo já acabou. Mas esqueceram de nos avisar. O que faz com que nós, em nossa ignorância, tentemos impedir o inevitável e salvar o planeta usando sacolas ecológicas.

Prova 1
Antigamente – é um sinal de idade avançada começar a tratar o passado como antigamente, mas não temo – as livrarias tinham vendedores que gostavam de livros. E, por isso, deixavam os clientes roubá-los.
Hoje, elas não são mais livrarias, são complexos multi-culturais onde se pode fazer quase tudo, tomar café, ginástica localizada, assistir palestra e encomendar despacho. Tudo, menos o óbvio ululante: ler. Os vendedores não gostam de livros, só de livros que todo mundo está lendo. E não entendem como alguém pode entrar no estabelecimento e, simplesmente, abrir um livro e começar a ler! Disparate! Pois livros são objetos para se comprar para o aniversário daquele seu primo ou do colega da repartição. Ao ver que você está em atitude suspeita – lendo – os vendedores têm certeza que você vai roubar. E, fingindo que apenas circulam pelo ambiente, começam a te vigiar com o rabo do olho.

Prova 2
Antigamente, uma das grandes emoções de se ir ao cinema era descobrir qual seria o nosso lugar. Uma emoção maior que a fuga do Hans Solo da Estrela da Morte. Será que vai ter lugar na frente? E junto? Por favor, tem alguém neste lugar? A gente se sentava, depois trocava de lugar pois tinha achado muito perto ou longe demais da tela. Aí comandava uma operação complicadíssima mobilizando toda a fila para que você e seu amor sentassem juntos. Comia uma pipoca meio-doce e meio sal, as luzes se apagavam e aquele filme mudava a sua vida.
Hoje, você tem que escolher onde vai sentar antes, ainda quando compra o ingresso. Os lugares são marcados. Acabou o suspense, acabou aquele Janela Indiscreta antes de entrar na sala. Sem falar na tensão, pois a bilheteira te apresenta um mapa de lugares e é de sua responsabilidade escolher. Como você não é arquiteto e tem inabilidade em perceber o espaço em plantas baixas, escolhe o pior lugar. E passa o filme inteiro se auto-flagelando. O casal, que antes ficava roçando mãos, hoje em dia passa o filme tendo uma DR sobre quem foi responsável pela escolha mal-feita. E a pipoca? Agora, as pipocas são combos gigantes que duram o filme inteiro, sem essa delicadeza da meio-a-meio. Sem a doçura da vida. A sala fica impregnada por um cheiro de manteiga durante o filme inteiro. Ah, vamos falar do filme? Porque tem isso também. Estamos num mundo cujo assunto é um filme com o Tom Cruise de tapa-olho.

Prova 3
Ninguém leva mais um grande amor a sério.

Dito isso, o último que apagar a luz do mundo é mulher do padre.
Continua no próximo capítulo.

(Jô Hallack)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s