Dom de se iludir

“Não, ele não respondeu”, falava a menina pelo telefone. Sim, ela estava em outra casa, mas eu ouvi o diálogo porque ela falava muito alto. E também, claro, porque eu adoro escutar conversas dos outros, não nego. A amiga do outro lado do telefone (como eu sei que era amiga? Que homem participaria de um diálogo desses?) deve ter falado: “que filho da puta”.

Sim, ele não tinha respondido um e-mail. E com certeza ele era um pretendente. Sorri. Até que escutei a teoria da moça: “eu acho ótimo que ele não tenha respondido. Isso é um bom sinal! Ruim mesmo seria se ele me respondesse me dando um fora!”

Atenção para a maravilha desse pensamento feminino: alguém não responder a um email é uma coisa BOA. Ser ignorada é melhor do que levar um bom fora. Sim, Freud já ensinou, o contrário do amor é a INDIFERENÇA. Não o ódio. Tem indiferença maior do que não responder a um email? Mas a vizinha carioca achou que isso era uma coisa boa. E eu simpatizei imensamente com ela. Realmente, quando a gente quer, é capaz de acreditar em qualquer coisa. Ou não. Talvez eu tenha perdido essa capacidade com os anos. Pior para mim.

(Por Nina Lemos)

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