Decisões de quando você volta de viagem

Quando a gente volta de viagem, quer dizer, três dias antes da gente começar a pensar em arrumar a mala para voltar de viagem, o mantra começa a ecoar: a minha vida é um lixo, a minha vida é um lixo, eu preciso mudar a minha vida. E quando você chega (porque infelizmente a gente é obrigada a voltar) geralmente está cheia de decisões. Com o tempo, confesso, já abandonei algumas das mais comuns. Como:
Vou andar mais de metrô. Não vou! E podem me chamar de burguesa. Mas para chegar no metrô eu preciso subir uma mega ladeira. E, o mais importante, ele náo me leva a nenhum dos meus trabalhos, nem para a análise, nem para a casa dos meus amigos. Pegarei o metrô quando tiver que ir ao poupa tempo, o que costuma acontecer uma vez por ano, porque esse é o prazo em que dura uma carteira de identidade na minha mão.
Vou andar mais a pé. Não vou. Andar a pé para mim significa atravessar a Rebouças (quem é de Sáo Paulo sabe do que estou falando) com medo de ser atropelada.
E a Teodoro Sampaio é uma rua bem feia. Só andarei a pé se arrumar um pretê andarilho ( e eu sempre atraio esses tipos, o último deles achava que a minha casa, em Pinheiros, era do lado do Baixo Augusta, e lá ia eu de salto com o dia amanhecendo enquanto ele dizia: “é pertinho”).
Vou me abrir mais para o mundo. Nem ferrando. Porque, em geral, quando eu me abro para o mundo em SP vou parar em uma festa patrocinada, gigante e cheia de playboy.
Agora, uma decisáo eu tomei e vou cumprir. Eu náo vou mais tomar bullyng. E vocês perguntam, como pode uma mulher dessa idade ser alvo de bullyng? É absurdo, mas pode. 2009 foi meu ano internacional do bullyng. Tomei bullyng de “amigos” gays que queriam se meter na minha vida amorosa e por isso cantaram musiquinhas para mim em festas fazendo corinho, tomei bullyng de gente que eu nem conheço fazendo piada com a minha pessoa no Facebook. E o que isso tem a ver com voltar de viagem? Tudo. Se eu não sou alvo de bullyng longe da minha casa (muito pelo contrário), não vou mais suportar isso na favela onde eu nasci. Adoro essa favela. Mas também gosto bastante de mim. E como estava escrito em um muro de Berlin: “La ville cest moi”. Ou seja. A cidade sou eu. E, a partir de agora, prometo que ela será ainda mais bem tratada. Mesmo que para isso eu tenha que fazer como os radicais de esquerda de Berlin e queimar os carros dos ricos que estão indo morar em prédios de luxo em seus bairros, o que os deixa sem casa. Eles fazem isso na prática. Eu vou fazer metaforicamente.

(Nina Lemos)

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