“Para mulher é mais fácil”

O taxista não tinha troco. E vocês sabem o quanto isso é irritante. Bem, se a corrida deu 15 reais e eu dei uma nota de 50, ele que se vire. É o trabalho dele. Não se fala mais nisso. Mas aí ele decidiu fazer uma coisa mais irritante ainda, me pedir para sair do carro e ir a um bar trocar a grana. Argumento: “Você é mulher, é mais fácil”. Ainda munida da minha ressaca natalina, disse para ele: “não, nada para mulher é mais fácil.”

E, sim, vou fechar o ano escrevendo aqui um texto bem feminista. O que não quer dizer que eu não goste de homem etc etc. E só eu ter que abrir esse parêntesis já é a prova de que para mulher nunca é mais fácil. A gente sempre tem que se justificar. “O texto é feminista, mas eu gosto de homem”, “Ás vezes eu surto, mas eu não sou louca”. Fácil?

Depois de sair do táxi para trocar o dinheiro (sim, eu fiz o que o cara “mandou”) comecei a pensar na teoria que um amigo me disse outro dia por telefone, para tentar entender comigo mais um abuso moral causado por homens idiotas (o que não quer dizer que eu ache que todos os homens são idiotas etc).

“Os.caras fazem certas coisas com mulheres porque sabem que não podem apanhar”, dizia meu amigo boxeador. E ele tem razão. O amigo não deve ter ouvido na vida metade das coisas que já ouvi (na rua, no trabalho, em festas, aeroportos, bancos e casinhas de sapê) por esse motivo simples: os homens têm medo de apanhar de outros homens. Por isso, não se metem a besta.

Como a gente é fraquinha e nem gosta de brigar (até ver gente brigando já me faz passar mal) sobra para nós, moças, muitas porradas faladas. Viramos o receptuário das loucuras do alheio. E aceitamos tudo passivamente, às vezes com lágrimas nos olhos.

Não, eu não vou sair por aí em 2010 batendo em homem. Eu nunca bati em ninguém. Na vida. Mas esse ano eu tive vontade de bater em dois caras. Um era gay (o que mostra que o abuso contra moças não tem sexo) e o outro era um hetero supostamente sensível (o que mostra que existe muito homem cruel disfarçado de sensibilidade).

Texto bem humorado para festejar o fim do ano, não? Mas é assim que as coisas são (ou têm sido, às vezes). Pelo menos nessas praias tão latinas, tão calientes, tão machistas.

(Nina Lemos)

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