Prefácio do livro

Esse era o prefácio que acabou não entrando no livro. Mas ele está tão incrível, que resolvemos publicar, afinal a opinião da Bia Abramo é muito importante e abalizada!

Prefácio (entre a sisudez e o ridículo)

Por Bia Abramo

É uma honra (mesmo), mas também um embaraço escrever este prefácio. A honra é dupla, de maneira que talvez supere o embaraço. Vamos a ela, então.

Dez anos atrás, numa conversa nos corredores da Folha, a Nina me pediu para escrever um texto para um fanzine que ela, a Jô e a Raq estavam fazendo. Era uma conversa de corredor no ambiente de trabalho, lembrem-se, daquelas em que se aproveita para falar o máximo de bobagens antes de voltar para a labuta, e a idéia da Nina era que eu escrevesse um texto chamado: “Eu agarro os homens”. Segundo a Nina, eu era uma mulher superior e moderna porque não ficava esperando a iniciativa masculina nas lides amorosas-sexuais. É claro que era um certo exagero da Nina (sobretudo no que diz respeito ao êxito do procedimento), mas topei, escrevi e tive a honra de ser publicada no primeiro exemplar do 02 Neurônio, na sua fase selvagem de fanzine à antiga, feito com tesoura e cola de verdade.

A segunda honra, claro, foi a de ser considerada ainda uma mulher superior e moderna a esta altura para escrever o prefácio do livro comemorativo dos 10 anos da holding “02 Neurônio”. Sim, porque nesses de anos o fanzine desdobrou-se em livros, programas de rádio, blogue, coluna no “Folhateen” etc. etc. Embora nenhuma delas tenha ficado rica com isso tudo, essa trajetória atesta o acerto de fazer um jornalismo de comportamento às avessas, a crônica anárquica das vicissitudes (aí, Nina, isso é o velho Freud) femininas dessa difícil transição do século XX para o XXI.

Espremidas entre as conquistas do feminismo e a permanência conservadora, num período em que a liberalização dos costumes – que de fato garantiu mais autonomia em todos os níveis para as mulheres – tem como contrapartida o esgarçamento cínico das relações, as mulheres se encontram em encruzilhadas existenciais, sexuais, amorosas, profissionais para as quais as respostas não são fáceis. Não temos e não queremos mais as velhas soluções – a submissão, a subordinação e o conformismo – e já vimos que as respostas do calor da hora do feminismo têm lá suas limitações. É preciso, a cada momento, formular novas respostas – e para tudo, desde o que fazer do cano furado a como ensinar ao filho como chamar os órgãos sexuais (eu aproveitei para adotar “pingolim”, que me soa mais divertido do que a média dos termos, e o meu Félix, Raq, criou por conta própria uma simpática “pixota”).

Nina, Jô e Raq, como todas nós, não sabem as respostas, mas as inventam e reinventam a partir de uma mistura infernal em que entram o humor, a inteligência, a atitude punk e, eu diria, a postura política. Diante do massacre fundamentalista da mídia feminina, que só sabe responder com normas aprisionantes e paradoxais (precisa emagrecer e precisa cozinhar bem, precisa ser linda e precisa trabalhar muito, precisa ser doce e precisa ser sexy, precisa ser independente e precisa ser compreensiva com os homens, precisa, sobretudo, consumir a revista para se consumir com tanta regra), a resistência e a crítica são mais do que necessárias.

Pode-se fazer crítica de muitos jeitos – as mulheres (não, ninguém aqui é mais garota ou menina, e isso é bom) de 02 Neurônio a fazem sendo astuciosamente questionadoras e desbragadamente ridículas (e isso também é bom). Daí meu embaraço – não tenho, como elas, a capacidade de rir tanto de mim mesma, e esse prefácio está saindo uma coisa sisuda, que vai afastar os leitores em vez de atraí-los. Melhor parar por aqui.

Até o aniversário de vinte anos, quando continuaremos sendo punks, gostando dos Smiths e tentando ser, como elas, cada vez mais ridículas.

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